Nos primeiros meses desse ano de 2026 eu li Practicing the Way, um livro mais-vendido da lista do jornal The New York Times, escrito por John Mark Comer.
Comer é um pastor brilhante, que têm construído um respeitado ministério ao longo de dezenas de anos nos Estados Unidos. Ele pastoreou a Bridgetown Church, uma igreja vibrante em Portland que continua a impactar profundamente a minha formação espiritual. E, o trabalho de Comer, que se seguiu com a organização Practicing the Way, continuam essa missão com maestria e qualidade.
Esse livro estava em minha lista de desejos há algum tempo, mas sempre adiava sua aquisição e leitura. Essa foi a minha primeira experiência de leitura integal de um livro em inglês, e fiquei muito feliz em usar a leitura para treinar o meu aprendizado do inglês.
Reúno neste artigo algumas das propostas apresentadas por Comer e minhas impressões sobre elas. Boa leitura.
O Caminho de Jesus
Comer faz um apanhado geral do estilo de vida ocidental, cercado por exposição de mídias sociais e outras ferramentas desenhadas para drenar a nossa atenção e influenciar a maneira que pensamos, sentimos, cremos, compramos, votamos e vivemos. O ponto de partida do livro surge com a seguinte pergunta: “Em quem ou no que estou me tornando?”.
Para “tirar a poeira” que envolve esse mundo globalizado, Comer relembra o convite de Jesus Cristo para segui-lo e trilhar o seu Caminho.
Caminho é uma palavra central nessa obra, pois ela aponta para uma via a ser trilhada na companhia do mestre. Comer diz que Jesus não convida as pessoas para meramente se converterem ao cristianismo, mas para serem seus aprendizes integrais em uma nova maneira de viver – um interessantíssimo convite, diga-se. O Caminho proposto por Comer é o mesmo de Dallas Willard, um dos autores preferidos dele e que diz que através do hábito nós podemos co-criar com Jesus uma mente fixada em Deus ao longo de todo o dia.
E aqui cabe uma pausa pra organizarmos as palavras que vão brotando da página. Enquanto Caminho ganha o status de um “local” em que se é vivido com alguém que o lidera, isto é, Jesus Cristo, nós, os seus aprendizes, precisamos repensar os nossos hábitos para, ao longo do Caminho, pensarmos em Deus e interagirmos com ele várias vezes ao dia.
É por isso que, a partir deste artigo, como proposto pelo livro, trataremos Caminho como inicial maiúscula – para que fique bem fixado que se trata de um resgate desse conceito.
Através de uma prática deliberada, você pode treinar sua mente para voltar para Deus, voltar para Deus, voltar para Deus…
John Mark Comer
As três metas
Com o conceito de Caminho bem definido, Comer aponta que precisamos perseguir a três metas, e elas serão fundamentais para a nossa caminhada cristã, isto é, para o Caminho:
- Estar com Jesus
- Tornar-se como ele
- Fazer como ele fez
A primeira meta soa mais como um chamado para passar um tempo com Jesus em oração, no lugar secreto. Comer diz que depois que você experimenta a prática da oração – da verdadeira oração – você percebe que aprofundar sua rendição a Deus e concentrar a sua atenção nele são as coisas mais importantes do mundo. A oração é tão importante e fundamental na vida do cristão que Comer diz que ela é o “portal principal para a alegria” e que, se não a encararmos com seriedade (ou seja, se não pularmos a etapa de vê-la menos como uma tarefa dentre outras tantas em nossas listas de tarefas) nossa vida não apenas será pouco frutífera como não receberemos a principal recompensa da oração: Jesus. Sim, Jesus é a própria recompensa!
Então, diante disso, não podemos de forma alguma dedicar menos tempo a estar com Jesus do que gastamos com redes sociais, serviços de streaming, jogos eletrônicos ou compras; se gastarmos horas diárias em nossos celulares e proclamarmos que não temos “tempo para Deus” seremos um grande mentiroso.
Existe uma chama ardente em sua alma, despertando o desejo de ter amizade com Jesus?
John Mark Comer
E aqui eu preciso fazer uma nova pausa para escutar uma das músicas que mais fez parte do momento em que estive lendo esse livro. Te convido a fazer essa pausa e escutar também.
E, se você não sabe por onde começar a cumprir a primeira meta (estar com Jesus), o próprio Cristo dá o passo: encontre um lugar secreto (Mateus 6:6). Sem essa vida de oração, defende Comer, a sua vida com Deus será murcha; com ela, você ganhará um frescor de vida para a maior das alegrias: uma amizade familiar com Jesus.
O maior empecilho para cumprir essa primeira meta está “no grande inimigo de nossa vida espiritual em nosso dias”, como disse Dallas Willard: a pressa.
Gaste um tempo meditando nas palavras abaixo:
Vivemos vidas dilaceradas pelo tempo: queremos estar com Jesus, mas simplesmente não temos tempo para orar. Desejamos sinceramente crescer e nos tornar pessoas cheias de amor, mas nossas listas de tarefas são longas demais para fazermos qualquer tentativa séria nesse sentido. Sabemos que o descanso é o segredo da jornada espiritual, mas o sábado? Isso representa um sétimo de toda a nossa vida! E, ainda assim, estamos profundamente insatisfeitos: sentimo-nos apressados, ansiosos, distantes de Deus, espiritualmente superficiais e presos a hábitos de comportamento que nos prejudicam. A jornada espiritual rumo às alturas do Reino chegou a um platô; o Caminho transformou-se em um ciclo repetitivo; a Páscoa tornou-se como o Dia da Marmota. (p. 61)
A segunda meta é “tornar-se como ele”: somos convidados não apenas a estar unidos à Cristo em oração e partilharmos de comunhão com ele no lugar secreto, mas ser formado nele; não se trata apenas de cumprir um programa de discipulado na igreja, mas se unir ao Espírito Santo em uma formação espiritual intencional sustentada pelo ensino da Palavra, pela vida em comunidade e pelas práticas espirituais propostas pelo livro (as 9 práticas, chamadas de Rule of Life (regra de vida) serão detalhadas resumidamente neste artigo, mas serão retomadas em um novo artigo exclusivo sobre elas em breve).
Aqui, Comer traz uma verdade profunda: a formação espiritual de nossas vidas não funciona na mesma velocidade que nossa vida digital (onde tudo é instantâneo), mas ela tem o seu próprio passo. Uma vez que nos fazem crer que devemos esperar que a vida seja fácil, rápida e controlável, a formação à imagem de Jesus é difícil, lenta e nós não estamos no controle!
Ser formado em Jesus é essencial para perseguirmos a terceira meta, que é fazer como ele fez. Jesus foi alguém que teve real interesse em ensinar aos seus discípulos o tipo de pessoa que ele queria que eles fossem, e isso inclui ações como amar, ensinar, curar, pregar, fazer…
Comer quebra essa meta em ritmos básicos como uma tentativa de categorizar o ministério de Jesus. O primeiro ritmo é abrir espaço para o evangelho – ou seja, ser hospitaleiro, abrir a sua casa para partilhar do pão e do vinho e contar as boas-novas. Para Comer, uma refeição é um excelente ponto de partida para se conectar com o próximo – e eu testifico que isso é verdadeiro. O segundo ritmo é pregar o evangelho. Uma vez que o pão foi partido e a presença da comunidade está sendo partilhada entre sorrisos e abraços, é a pregação do evangelho que traz a boa notícia. Mas não uma pregação seca e infértil, mas uma pregação que testemunha, que encontra Deus no cotidiano e o revela aos outros. Por fim, o terceiro ritmo é de demonstrar o evangelho através dos dons espirituais, como a cura, a profecia, a libertação, a justiça e o amor.
As nove
Todo o discurso de Comer encontra posição em um conjunto de nove práticas espirituais (Rule of Life) que são essenciais para uma vida cristã frutífera e piedosa:
- Sabbath (praticar um dia semanal de descanso em uma cultura de pressa e exaustão)
- Oração (praticar comunhão com Deus em uma cultura de distração e escapismo)
- Jejum (praticar santidade em uma cultura de indulgência e imoralidade)
- Solitude (praticar paz e quietude em uma cultura de ansiedade e barulho)
- Escrituras (praticar fidelidade corajosa à ortodoxia em uma cultura de compromissos ideológicos)
- Comunidade (praticar amor e profundidade em uma cultura de individualismo e superficialidade)
- Generosidade (praticar o contentamento em uma cultura de consumismo)
- Serviço (praticar justiça, misericórdia e reconciliação em uma cultura de injustiça e divisão)
- Testemunho (praticar a hospitalidade em uma cultura de hostilidade).
Eu concluí a leitura de Practicing the Way com uma doçura na boca e um coração flamejante. Em um mundo com tanto ruído e informação, encontrar um conjunto de práticas espirituais, bem desenhada e coordenada, foi reconfortante e me deu esperanças. Críticas à obra de Comer são bem-vindas, e eu pude medi-las à medida que fui lendo o livro; mas as práticas propostas são compromissos espirituais valiosos para cristãos de todas as gerações, e em todos os tempos.
Em breve, farei um novo post dissertando com mais detalhes sobre essas nove práticas.
Obrigado!
Outras obras famosas
Sobre o mesmo tema (práticas/disciplinas espirituais) há outras obras famosas que podem nortear a sua formação espiritual:
- Praticando a presença de Deus, de Irmão Lawrence
- A formação espiritual: Seguindo os movimentos do Espírito, de Henri Nouwen

